quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O medo da mídia golpista: uma gritaria para manter o monopólio

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Os leitores possivelmente estão acompanhando a gritaria dos grandes veículos de comunicação relacionada com uma suposta ameaça de censura ou algo do gênero. Na verdade, atrás disso esconde-se uma estratégia destinada a enganar a opinião pública e dessa forma evitar avanços na área da mídia, cuja regulamentação está totalmente defasada e precisa ser atualizada.

- Por Mário Augusto Jakobskind, no Direto da Redação

Ou seja, no fundo os barões da mídia presentes principalmente em O Estado de S. Paulo, O Globo e Folha de S.Paulo, TV Globo, Record, etc. querem apenas defender privilégios e em nome disso misturam o conceito de liberdade de imprensa com o de liberdade de empresa.

Quando da realização no mês passado da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), quase diariamente os jornais e televisões se dedicaram ao muro de lamentações midiático de entidades que exatamente se recusaram a debater questões de interesse de toda a população.

Aí a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), capitaneada pelas Organizações Globo, juntamente com a Associação Nacional dos Jornais, não pararam de acusar a Confecom infundadamente, ou seja, com mentiras deslavadas sempre tendo como norte a suposta ameaça à liberdade de imprensa e de expressão.

E isso quando ocorria exatamente ao contrário, isto é, os participantes da Confecom — representantes de movimentos sociais, do governo e setores empresariais não vinculados ao esquema Abert/ ANJ — aprovavam 655 propostas a serem encaminhadas ao Congresso para debate e aprovação ou não. A Abert e a ANJ simplesmente recusaram-se a participar da Conferência, exatamente porque se negavam a debater, o que é uma contradição total para quem se diz democrata.

Os jornalões, os mesmos que apoiaram o golpe de 64, como O Globo, Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo, dedicaram editoriais com premissas mentirosas e totalmente distorcidas, para criticar a Confecom e, como se não bastasse, logo em seguida o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos. Bóris Casoy, que nos anos 60 militava no Comando de Caça aos Comunistas (CCC), e até Joelmir Beting entraram no jogo da manipulação com mentiras e no mais puro estilo de babar ódio.

Mais uma vez foi colocado em pauta o falso argumento das ameaças à liberdade de imprensa e de expressão. Eis, portanto, uma adjetivação que se repete em vários países das Américas e sob o patrocínio de ideólogos recomendados a consolidar mentiras até que virem absolutas verdades. Na Argentina, os papagaios de pirata não param de inventar histórias, que são repetidas pelos quatro cantos da América Latina.

Um item chamou muito a atenção de quem tenta analisar os fatos: a repetição da alegação de que a imprensa estaria ameaçada pelo projeto de direitos humanos. Uma mentira que não resiste à menor análise. Os barões da mídia vestiram a carapuça.

O projeto do 3º PNDH, na parte referente à mídia, apenas defende a regulamentação de um artigo da Constituição com a indicação no sentido de apontar punições para violações dos direitos humanos. Uma determinação, diga-se de passagem, que consta da Convenção de Direitos Humanos, o Pacto de São José, do qual o Brasil é signatário.

Portanto, nada propriamente de novo no front, apenas medidas preventivas no sentido de evitar que se utilizem as concessões públicas com o objetivo de desrespeitarem os direitos humanos, como ocorre em certos programas de TV que jorram sangue e têm média de grande audiência.

A mídia conservadora ligou todas as baterias para contestar o fato de se questionar a existência do monopólio na área de comunicação. Aí apareceu um parlamentar que se imaginava ter se regenerado pelo que fez no passado, tomando as dores dos big-shots do setor midiático, ao afirmar que “no Brasil não há monopólio”.

O parlamentar mencionado é Miro Teixeira, do PDT, que saiu em campo para negar a existência de monopólio dizendo que no país há concorrência no setor, etc. e tal. Consciente ou inconscientemente, o deputado que no passado ascendeu à política pelas mãos do então governador Chagas Freitas, exemplo concreto de fisiologismo e linha auxiliar da ditadura, fez o jogo favorável a um poderoso grupo midiático. Tem espaço garantido nos telejornais da TV Globo, o que é de grande serventia para os políticos em ano eleitoral.

Teixeira alguns meses atrás ganhou tremendo espaço na mídia conservadora ao defender com unhas e dentes a revogação da Lei da Imprensa, utilizando nesse sentido o argumento do gênero meia verdade, ou seja, que era necessário remover um entulho da ditadura. Certamente que foi importante a remoção, mas só que nada foi colocado no lugar e o direito de resposta ficou prejudicado.

Ou seja, se alguém agora se sentir prejudicado em algum comentário ou matéria e quiser responder vai penar. É o caso então de se perguntar: não seria justo remover de vez o entulho autoritário e deixar uma mínima regulamentação para evitar o hiato atual na questão do direito de resposta? Por que então não se removeu apenas o entulho autoritário e se aprimorou uma lei de imprensa como existe em vários países democráticos?

Na questão do monopólio, na prática, Teixeira simplesmente limpou a barra das Organizações Globo, a mesma empresa que tem propriedade de rádio, televisão e jornal numa mesma área, o que caracteriza o monopólio. O parlamentar desconhece que o poder da Globo é tamanho que consegue marcar hora para o início de partida de futebol, usa o espaço eletrônico, seja no jornalismo ou na teledramaturgia, para defender poderosos interesses econômicos.

E tudo isso acontece na prática em detrimento de uma verdadeira democracia, não aquela defendida pelo patronato midiático conservador, que em tempos passados apoiou o golpe de Estado que derrubou o presidente constitucional João Goulart e lançou o país numa noite escura de desrespeito aos direitos humanos.

É sempre importante lembrar esse fato, porque para se conhecer melhor o presente é preciso também não esquecer fatos relevantes da história nacional. Até porque, nos momentos em que o país se esforça para consolidar a democracia e avançar nas transformações sociais necessárias neste século 21, a mídia conservadora volta ao esquema golpista muito parecido ao de 46 anos passados.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Miro Borges: Boris Casoy é “uma vergonha”

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A história de Boris Casoy é das mais sombrias. Ele sempre esteve vinculado a grupos de direita e manteve relações com políticos reacionários. Segundo artigo bombástico da revista Cruzeiro, em 1968, o então estudante do Mackenzie teria sido membro do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), o grupo fascista que promoveu inúmeros atos terroristas durante a ditadura militar.

- por Miro Borges, no site Vermelho

Primeiro vídeo: ao encerrar o Jornal da Band da noite de 31 de dezembro de 2009, dois garis de São Paulo aparecem desejando feliz ano novo ao povo brasileiro. Na sequência, sem perceber o vazamento de áudio, o fascistóide Boris Casoy, âncora da TV Bandeirantes, faz um comentário asqueroso: “Que merda... Dois lixeiros desejando felicidades... do alto de suas vassouras... Dois lixeiros... O mais baixo da escala do trabalho”.

Segundo vídeo: na noite seguinte, o jornalista preconceituoso pede desculpas meio a contragosto: “Ontem durante o programa eu disse uma frase infeliz que ofendeu os garis. Eu peço profundas desculpas aos garis e a todos os telespectadores”. Numa entrevista à Folha, porém, Boris Casoy mostra que não se arrependeu da frase e do seu pensamento elitista, mas sim do vazamento. “Foi um erro. Vazou, era intervalo e supostamente os microfones estavam desligados”.

Do CCC à assessoria dos golpistas

Este fato lastimável, que lembra a antena parabólica do ex-ministro de FHC, Rubens Ricupero – outras centenas de comentários de colunistas elitistas da mídia hegemônica infelizmente nunca vieram ao ar –, revela como a imprensa brasileira “é uma vergonha”, para citar o bordão de Boris Casoy, com seu biquinho e seus cacoetes. O episódio também serve para desmascarar de vez este repugnante apresentador, que gosta de posar de jornalista crítico e independente.

A história de Boris Casoy é das mais sombrias. Ele sempre esteve vinculado a grupos de direita e manteve relações com políticos reacionários. Segundo artigo bombástico da revista Cruzeiro, em 1968, o então estudante do Mackenzie teria sido membro do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), o grupo fascista que promoveu inúmeros atos terroristas durante a ditadura militar. Casoy nega a sua militância, mas vários historiadores e personagens do período confirmam a denúncia.

Âncora da oposição de direita

Ainda de 1968, o direitista foi nomeado secretário de imprensa de Herbert Levy, então secretário de Agricultura do governo biônico de Abreu Sodré – em plena ditadura. Também foi assessor do ministro da Agricultura do general Garrastazu Médici na fase mais dura das torturas e mortes do regime militar. Em 1974, Casoy ingressou na Folha de S.Paulo e, numa ascensão meteórica, foi promovido a editor-chefe do jornal de Octávio Frias, outro partidário do setor “linha dura” dos generais golpistas. Como âncora de televisão, a sua carreira teve início no SBT, em 1988.

Na seqüência, Casoy foi apresentador do Jornal da Record durante oito anos, até ser demitido em dezembro de 2005. Ressentido, ele declarou à revista IstoÉ que “o governo pressionou a Record [para me demitir]... Foram várias pressões e a final foi do Zé Dirceu”. Na prática, a emissora não teve como sustentar seu discurso raivoso, que transformou o telejornal em palanque da oposição de direita, bombardeando sem piedade o presidente Lula no chamado “escândalo do mensalão”.

Nos bastidores da TV Bandeirantes

Em 2008, Casoy foi contratado pela TV Bandeirantes e manteve suas posições direitistas. Ele é um inimigo declarado dos movimentos grevistas e detesta o MST. Não esconde sua visão elitista contra as políticas sociais do governo Lula e alinha-se sempre com as posições imperialistas dos EUA nas questões da política externa. O vazamento do vídeo em que ofende os garis confirma seu arraigado preconceito contra os trabalhadores e tumultuou os bastidores da TV Bandeirantes.

Entidades sindicais e populares já analisam a possibilidade de ingressar com representação junto à Procuradoria Geral da República. Como ironiza Beto Almeida, presidente da TV Cidade Livre de Brasília, seria saudável o “Boris prestar serviços comunitários por um tempo, varrendo ruas, para ter a oportunidade de fazer algo de útil aos seus semelhantes”. Também é possível acionar o Ministério Público Federal, que tem a função de defender os direitos constitucionais do cidadão junto “aos concessionários e permissionários de serviço público” – como é o caso das TVs.

Na 1ª Conferência Nacional de Comunicação, realizada em dezembro, Walter Ceneviva, Antonio Teles e Frederico Nogueira, entre outros dirigentes da Rede Bandeirantes, participaram de forma democrática dos debates. Bem diferente da postura autoritária das emissoras afiliadas à Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), teleguiadas pela Rede Globo. Apesar das divergências, essa participação foi saudada pelos outros setores sociais presentes ao evento. Um dos pontos polêmicos foi sobre a chamada “liberdade de expressão”. A pergunta que fica é se a deprimente declaração de Boris Casoy faz parte deste “direito absoluto”, quase divino.